Quando a raiva bate: um caminho para não se perder de si
- Girlande Oliveira
- 17 de jun.
- 4 min de leitura
Existem dias em que tudo nos provoca. A rotina cansa, os imprevistos transbordam, as palavras alheias pesam mais do que o habitual. E, de repente, lá está ela — a raiva — surgindo como um fogo urgente por dentro.
É um calor que sobe do estômago para o rosto, que embaralha os pensamentos, que nos tira do centro. A raiva, quando chega, não pede licença. Ela invade. E, se não soubermos o que fazer com ela, acabamos ferindo — os outros ou a nós mesmas.
Mas a raiva não é vilã. Ela é parte da nossa natureza emocional. Serve para avisar que algo nos feriu, nos ultrapassou, nos tirou do eixo. O problema não é senti-la — é não saber como acolhê-la e direcioná-la.
Em dias difíceis, o primeiro impulso é reagir. Falar alto, responder no calor do momento, bater a porta, descontar em quem estiver por perto. Mas o que vem depois disso? Culpa. Vergonha. Arrependimento. E mais dor.
Por isso, a proposta é outra: e se, em vez de reprimir ou explodir, a gente escolhesse processar a raiva de forma gentil? Sem se agredir, sem se envergonhar, sem se machucar.
Pode parecer impossível no calor da emoção, mas não é. É uma prática. E como toda prática, começa com um passo.
Primeira coisa: reconhecer o que está sentindo
Muitas vezes a gente diz “tô estressada”, “tô ansiosa”, “tô cansada”. Mas, no fundo, estamos com raiva. E não temos coragem de admitir. Talvez porque aprendemos que raiva não é coisa bonita. Que não é feminino. Que não é espiritual. Que não combina com a imagem que queremos passar.
Mas sentir raiva é humano. E negar isso só faz com que ela encontre saídas tortas — como dores no corpo, críticas ácidas, sabotagens silenciosas.Então, o primeiro gesto de amor é nomear:“Estou com raiva.”Só isso já muda tudo. Dá contorno ao que parecia difuso. Dá voz ao que pedia para ser ouvido.
Depois, encontrar um espaço de expressão segura
Raiva guardada adoece.Raiva descarregada em qualquer um machuca.Raiva acolhida pode curar.
O que você precisa é criar um meio do caminho entre esses dois extremos. Um espaço em que você possa extravasar sem culpa — e sem fazer estrago.
Você pode, por exemplo, escrever. Escreva com raiva mesmo. Rabisque. Xingue. Solte tudo sem filtro. A folha de papel não vai te julgar. E, no final, você vai se sentir mais leve.
Outra opção é o movimento. O corpo quer participar do processo. Dance com força. Bata um travesseiro. Dê socos no ar. Pule. Corra. Sua raiva é energia — precisa sair de algum jeito.
Se não puder se mover, respire. Respiração é ponte entre emoção e presença. Inspire pelo nariz contando até 4. Segure por 4. Solte pela boca por 6. Faça isso algumas vezes. Sua mente vai voltar para o agora.
E se ainda assim a raiva estiver ali, fale com alguém. Uma amiga, um terapeuta, uma voz de confiança. Às vezes, só o ato de contar o que sentimos já transforma a intensidade.
E se você só puder chorar, chore
Sim, tem raiva que vira choro. Não é fraqueza. É profundidade. É o corpo dizendo: “não sei lidar com isso, então deixo sair assim”.
Chorar é uma forma legítima de extravasar a raiva.
Deixe as lágrimas correrem.
Não se preocupe em se explicar.
Elas limpam por dentro.
Cuidado com as histórias que você conta para si
Muitas vezes a raiva se alimenta mais da narrativa que criamos do que do fato em si.
Algo nos irrita — mas o que mais nos consome é a voz interna dizendo:
“Isso sempre acontece comigo.”“Eu sou idiota por ter deixado.”“Por que eu nunca reajo como deveria?”
Pare. Respire. Questione:
“O que está realmente acontecendo aqui?”
“O que eu preciso agora?”
Interromper a cadeia de pensamentos automáticos é uma forma de cuidar da raiva — e de si.
Raiva também é limite
Às vezes, sentimos raiva porque ultrapassamos nosso próprio limite.
Dizemos sim quando queríamos dizer não.
Assumimos tarefas além do que conseguimos dar conta.
Engolimos comentários, acumulamos silêncios.
A raiva, então, vem como alerta:"Você se esqueceu de você."
Nesse caso, não basta extravasar. É preciso reconstruir o limite.Reafirmar o que você precisa, o que você aceita, o que você não tolera mais.
Raiva pode ser caminho para empoderamento — se escutada com atenção.
E depois de tudo, abrace a si mesma
Quando a raiva vai embora, pode deixar uma sensação de cansaço, de vergonha ou de vazio.
É aí que entra o gesto mais importante: o acolhimento.
Toque seu peito.
Diga a si mesma:“Está tudo bem. Eu me vi. Eu me escutei. Eu me cuidei.”
Você não precisa ser perfeita para merecer amor.Você só precisa ser verdadeira.
E raiva é parte da sua verdade.
Para levar consigo
A raiva não precisa ser uma inimiga.
Ela pode ser um guia.
Um alerta.
Uma mensageira do que não está em paz.
Quando você aprende a escutar a raiva sem medo, algo se transforma:
você se torna mais inteira,
mais consciente,
mais livre.
Não se trata de “dominar” a raiva.Mas de se tornar íntima dela.
De saber onde ela mora, o que ela quer te dizer — e como pode sair sem destruir o que você está construindo.
Que você se permita sentir, expressar e cuidar — até nos dias difíceis.
Que sua raiva encontre caminhos de saída que te fortaleçam.
E que, no final do dia, você saiba: você é uma boa companhia para si mesma, mesmo quando está furiosa.
Com amor e presença,
Girlande Oliveira
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